MARCELO SOARES COTTA - CRT 43238
Terapeuta Holístico
            Os transtornos alimentares são muito comuns em nossa sociedade. Eles são fruto da relação mais básica do ser humano, ou seja, dele consigo mesmo. O fato de não obter sucesso ou uma saudável relação com os alimentos é um sinal de que algo na área psíquica da pessoa precisa de ser trabalhada.
            Nossa primeira experiência com alimentação vem do seio materno, ou seja, nossa primeira experiência de satisfação já vem “colocada” por outra pessoa, a mãe. O bebe não tem controle sobre quando e quanto de alimento ele receberá, este procedimento é efetuado por outra pessoa, desde cedo a relação com comida é ligada ao outro. Para as pessoas distantes da área psíquica isto pode parecer uma bobagem, mas lembre-se que a criança está aprendendo desde que nasce e este é um dos primeiros aprendizados. Desta maneira fica clara o comprometimento da formação estrutural do ser humano baseado no tipo e maneira de convivência com os outros seres humanos.
            O leite materno é tido como a primeira experiência de satisfação da criança. As experiências de satisfação são buscadas durante toda nossa vida, lembrando do conforto, proteção e aconchego fornecidos pela mãe. A primeira sensação psíquica de sofrimento que a criança tem é a angústia com relação a ter ou não o alimento.
            Analisando pelas informações acima todas as pessoas deveriam ter uma relação complicada com os alimentos. Gostaria, no entanto, de lembrar que a alimentação é uma das primeiras experiências de satisfação que o bebe tem, porém existem outras como, por exemplo, a evacuação, o conforto corporal. Cada pessoa tem experiências únicas e subjetivas que determinam algumas marcações que o acompanham durante toda a vida.
Todos passamos por situação em nosso cotidiano que geram frustração, angústia, privação. Quando estamos diante desses problemas temos tendência a um retorno a nossos primeiros momentos de vida. No caso das pessoas com transtornos alimentares e da obesidade este retorno busca saciar a fome emocional.
Existe uma diferença primordial entre querer emagrecer e querer ser emagrecido. Quando quer ser emagrecido coloca-se a responsabilidade no outro, como se fosse possível para um terceiro resolver os seus problemas. O primeiro passo é conscientizar-se de que você é capaz de encontrar as raízes dos problemas que levaram você a ter essa relação conturbada com a alimentação.
A relação com a maneira de alimentar-se pode ser considerada um transtorno quando passa a controlar a vida da pessoa. É normal um certo narcisismo com relação ao corpo, uma preocupação com a saúde levando em consideração a ingestão de alimentos saudáveis, porém quando isto se transforma em uma obsessão devemos tomar cuidados. Preste atenção nos seguintes sinais:
·        Seguir um regime caprichoso;
·        Atividade física exagerada;
·        Freqüentemente ficar na frente do espelho conferindo as medidas do corpo;
·        Pesar-se com freqüência;
·        Preocupar-se excessivamente com dietas;
·        Tentar esconder seus hábitos alimentares;
·        Auto-estima vinculada fortemente ao peso ou forma corporal;
·        Isolar-se socialmente;
·        Prejudicar outras atividades de sua vida em decorrência da preocupação com peso, forma corporal ou dietas;
 
Não há uma causa específica para os transtornos alimentares, eles são multifatoriais, tendo contribuições de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, socioculturais e familiares. Desta forma a subjetividade ainda fica mais caracterizada, tendo a individualidade da pessoa uma importância fundamental. A seguir vamos discorrer um pouco sobre os transtornos alimentares mais comuns.
- Obesidade
            As raízes da obesidade estão no instinto de preservação. É fruto de múltiplos fatores como: influencia genética, mecanismos de armazenamento de gordura, hábitos alimentares, fatores ambientais e psicológicos. Associados a ela podem ter depressão, ansiedade, baixa-estima. Habitualmente a obesidade não é um simples excesso de peso, mas uma manifestação de conflitos e vivencias e a expressão de uma dinâmica psíquica. O excesso alimentar pode ter a função de evitar o contato com a própria subjetividade.
- Transtorno da compulsão alimentar periódica
            Este transtorno caracteriza-se pela ingestão de grande quantidade de alimentos, em um pequeno período de tempo, acompanhada de uma sensação de descontrole, seguida de culpa ou desconforto psíquico. Nesta disfunção não ocorre a utilização de métodos compensatórios (vômitos, laxantes, diuréticos, etc). As características são comer muito e mais rapidamente que o normal, comer até sentir-se inconfortavelmente farto, comer sozinho por embaraço, sentir repulsa por si mesmo após o fato.
            Os alimentos característicos são aqueles que não exigem preparo como biscoitos, doces, torradas, chocolates, sorvetes, Paes, etc. As pessoas com esse distúrbio evidenciam uma insatisfação com o corpo, comem pouca quantidade em publico, sempre estão iniciando um novo programa de emagrecimento, seus hábitos sociais estão ligados a ter ou não ter tido compulsões no dia, tem um peso acima da média.
- Anorexia Nervosa
            Caracteriza-se pela perda de peso intensa as custas de jejuns e dietas extremamente rígidas em busca do ideal de magreza. A pessoa apresenta uma distorção da imagem corporal, o que significa uma perturbação na percepção da forma ou tamanho do corpo.
            Este transtorno caracteriza-se, inicialmente, por uma luta ativa contra a fome. Com o passar do tempo à pessoa passa a não sentir mais apetite. Começa geralmente no inicio da adolescência e com predominância do sexo feminino.
            Freqüentemente a anorexia inicia-se a partir de uma dieta, em razão da insatisfação com o peso ou imagem corporal. A pessoa vai aumentando a restrição alimentar progressivamente até chegar a uma dieta extremamente rígida ou jejum durante todo o dia, atingindo um peso muito abaixo do saudável.
            A distorção da imagem corporal é extrema, pessoas se sentem gordas apesar de estar com o peso muito baixo, sempre identificando possíveis gordura ou defeitos em seu corpo. Observar-se que elas começam a evitar sentar-se à mesa, eventos sociais, vestem-se com roupas que ocultam o corpo, praticam atividade física exagerada, sofrem de amenorréias, olham-se no espelho exageradamente, experimentam roupas de forma incansável (buscando números cada vez menores), falam muito sobre comida (calorias e peso), tem dificuldade de se alimentar fora de casa, freqüentam grupos que promovem o comportamento anoréxico, negam ter fome, são introvertidas, considera sua alimentação normal, tem orgulho do sintoma, não se sentem doentes, traços obsessivos. O quadro familiar pode apresentar uma necessidade de perfeccionismo, excesso de controle (ênfase no bom comportamento e conduto social “adequada”), idealização da família, altas expectativas dos pais com relação aos filhos, repressão das emoções.
- Bulimia Nervosa
            A principal característica deste transtorno é a rápida ingestão de alimentos com sensação de perda de controle, acompanhados de métodos compensatórios inadequados para o controle de peso como: vômitos auto-induzidos, utilização de laxantes, inibidores de apetite, dietas rígidas.
            A história do paciente bulímico é parecida com a da anorexa, iniciando com a excessiva preocupação em relação ao seu peso e forma corporal. O sentimento da pessoa é de que está gorda e tem um medo mórbido de engordar mais.
            As pessoas com bulimia iniciam uma dieta rígida e a partir de um certo momento sentem uma fome voraz, devorando uma grande quantidade de alimento de forma descontrolada. Em razão desse descontrole sentem um mal-estar físico acompanhado de sofrimento psíquico (culpa, vergonha, sensação de fracasso), neste momento passam a utilizar métodos compensatórios para tentar anular os efeitos da ingestão calórica. Os comportamentos levam a um alivio momentâneo, porém aumentam as sensações de culpa, vergonha e baixa-estima.
            As formas que podemos identificar se a pessoa está ou não com esse transtorno podem ser através de observações como restos de comida pelo quarto, embalagens vazias de alimentos, dificuldade de comer alimentos calóricos, comer as escondidas, esconder alimentos, apresentar intensa angústia após ter comido, falam de fome freqüentemente, sente-se fracassada diante de seus objetivos, são extrovertidas, desorganizadas. O quadro familiar pode constar desorganização, ausência de regras e limites, problemas de comunicação, repressão das emoções.
- Vigorexia
            Este sintoma é mais comum nos homens do que nas mulheres e caracteriza-se por uma preocupação excessiva em ganhar massa muscular, tornando-se forte. O início é na adolescência, recorrente de uma insatisfação com o corpo e submissão aos ditames da cultura.
            Essas pessoas realizam práticas esportivas continuas sem importar com eventuais conseqüências ou contra-indicações. Acreditam estar sempre aquém do corpo ideal, apresentando distorção da imagem corporal.
 
Tratamento dos Transtornos Alimentares
 
             A estratégia da abordagem psicoterapêutica é proporcionar um espaço seguro e confiável para que a pessoa com o transtorno possa compartilhar seu mundo interno com o terapeuta. Essas pessoas possuem grande dificuldade de entrar em contato com sua própria subjetividade e tolerar emoções. Após um período em que o terapeuta acolhe a demanda da pessoa surge espaço para que os conteúdos subjetivos tomem lugar dos concretos que são inicialmente apresentados. Este tratamento não fica somente focado no conteúdo sobre os sintomas em si, mas com o processo de abertura do paciente obtém-se uma visão de como a vida é abordada e transpassada pelo sujeito. Com o tratamento ocorrem mudanças na vida geral da pessoa não somente no aspecto da alimentação.
            O aspecto psicoeducacional também ocorre com o fornecimento de informações corretas e adequadas sobre comportamento alimentar. O acompanhamento de um nutricionista é recomendado.
             Sempre é importante considerar o sintoma como fonte de informação sobre seu inconsciente e o que aflige a pessoa. Encarar como forma de se conhecer melhor, evoluir, transformar-se em outra pessoa, uma mais feliz.