Considerações sobre sexualidade infantil
Quando sugerido por Freud, este tema foi origem de muita controvérsia e também causa de discórdia entre vários de seus colaboradores na época. Até então a pulsão sexual era considerada ausente na infância e somente se manifestava na adolescência.
O prazer obtido pela criança nas necessidades fisiológicas fundamentais (respiração, fome, excreção, amamentação, etc) era considerado como sendo uma mera satisfação, ou nem considerado. O extrato sexual mais primitivo, o auto-erotismo, as zonas erógenas, organização da libido em fases, nada disto era tema de debate na estrutura infantil.
Os estudiosos da época valorizavam, para causas de distúrbios psíquicos, muito mais o fator hereditariedade (pais, antepassados) do que o que ocorre na infância do individuo, ou seja, a vida infantil não tinha correlação com a vida adulta. A razão para que os fatos ocorrentes na infância não fossem investigados era a amnésia, que ocorre na maioria das pessoas, do que aconteceu em sua vida até os 6 (seis) ou 8 (oito) anos de idade. Deste período somente temos lembranças de alguns fatos isolados ou ações fragmentadas. Exatamente esses esquecimentos é que podemos comparar ao que ocorre com os neuróticos, que seriam basicamente recalcamento do que aconteceu.
Nas crianças surgem forças anímicas que guiam os caminhos da pulsão, são baseados nos sentimentos de vergonha, nos ideais estéticos e morais. A educação é, em parte, formadora desses conceitos, porém esse movimento é hereditário e mesmo sem a educação é desenvolvido. O papel da educação entra como um polimento no processo.
Vamos descrever agora o chupar, sugar da criança. Este ato já aparece no lactante e não tem período definido de termino, podendo permanecer por toda a vida. O sugar acontece mesmo em períodos em que não está ocorrendo a amamentação e percebe-se que gera um extremo prazer à criança.
No caso de chupar o dedo a pulsão está direcionada para o próprio corpo, é auto-erótica. A criança está tendo esta atitude objetivando o prazer, este foi obtido durante a sucção na amamentação. A principio a satisfação da zona erógena foi associada à necessidade de alimento. Quantas vezes não foram vistas crianças com feições de êxtase após a amamentação.
A partir do exemplo acima podemos estreitar a caracterização do que são zonas erógenas: parte da pele ou mucosa que certos tipos de estimulação provocam sensação prazerosa. Sendo assim a qualidade do estímulo é mais importante do que a natureza da parte do corpo na produção de uma sensação prazerosa. O alvo da pulsão infantil consiste em satisfazer a zona erógena que de algum modo foi escolhida.
Além dos lábios a zona anal é outra fonte erógena. Os desarranjos intestinais da infância são grande fonte de excitação desta zona. As crianças que se utilizam desta zona acumulam fezes até que gerem uma contração muscular intensa na região, isto é a causa de alguns bebes se recusarem a usar o “troninho”, o motivo não é a rejeição ao mesmo e sim que querem reter as fezes ao máximo, tendo assim uma grande sensação prazerosa.
A área genital é uma zona erógena que não desempenha papel especial na infância, além de ser a saída do canal urinário.
Fases da masturbação infantil:
· Período de lactância;
· Florescência da atividade sexual (aproximadamente quarto ano de vida);
· Onanismo (satisfação do prazer sexual através da masturbação) da puberdade;
No lactante o prazer obtido tende a desaparecer após um curto espaço de tempo. Normalmente, após o quarto ano de vida a pulsão sexual novamente se desperta. As circunstancias que geram esse despertar e nova paralisação são variáveis de pessoa a pessoa, o fato é que este período deixa marcas inconscientes que determinam o caráter da pessoa.
Desde criança já podemos notar excessos que podem ocorrer. Nesta fase é normal a curiosidade de ver os genitais de colegas, pessoas do mesmo sexo e do sexo oposto, prazer de olhar e se exibir, os atos sedutores, observar outras pessoas defecando e urinando, porém os exageros são indicadores de tendências futuras.
É natural nas crianças a crueldade, pois a trava que faz a pulsão de dominação deter-se ante a dor do outro, sentimento de compadecer-se, tem um desenvolvimento relativamente tardio. É possível que esta pulsão seja substituída depois que os genitais assumam seu papel sexual.
Mais tarde, porém começa a surgir a vergonha e outros sentimentos de obstáculos com relação às ações infantis, neste momento a repressão já começa a agir.
Entre os 3 (três) e os 5 (cinco) anos entre em cena, na vida da criança, a pulsão do saber ou investigar. Sendo a época dos porquês, fazendo com que a criança busque o conhecimento em tudo que gira ao seu redor. Bem conhecida também é a busca em saber de onde vem os bebes, trazendo consigo o medo de perder os cuidados e carinhos em função da chegada de um concorrente. A diferença entre os sexos vem após a preocupação com a origem dos bebes. A presunção é que todos possuem um pênis e que nas meninas ele ainda irá crescer, posteriormente muda-se para um pensamento de que foi castrado, gerando um pensamento original de inveja do pênis. Essas investigações e a maneira como são interpretadas pelas crianças representam um grande papel nas diversas perversões futuras.
A vida sexual infantil possui como características o fato de ter pulsões parciais completamente independentes entre si, ser auto-erótica e seu desfecho tem como resultado a vida sexual do adulto, que busca prazer a serviço da função reprodutora, principalmente sobre uma zona erógena, tendo como alvo um objeto sexual do sexo alheio, normalmente.
Para completar esse quadro é bom salientar que a escolha do objeto sexual já foi feita até a puberdade. Este caminho ocorre em dois tempos: entre os dois e cinco anos e na puberdade. Podemos dizer então que a vida sexual do adulto tem início na infância, assim como suas preferências, tendências e caminho.
Buscando caracterizar um pouco mais as origens da pulsão sexual, podemos dizer que:
· É a reprodução de uma satisfação relacionada a outros processos orgânicos, como, por exemplo, mamar;
· Ocorre com a estimulação das zonas erógenas, ainda que não se sabe ao certo como ocorre a relação entre esta estimulação e a zona erógena escolhida;
· São expressões de algumas pulsões não totalmente compreendidas em sua origem, como: pulsão para ver e a pulsão para crueldade.
