MARCELO SOARES COTTA - CRT 43238
Terapeuta Holístico
Jacques Lacan
 
            Minha maior satisfação ao escrever um trabalho de conclusão de matéria ocorre quando consigo relacionar um exemplo prático à teoria exposta em sala de aula.
            Na primeira aula deste semestre as professoras Maria Helena e Maria Lúcia, iniciaram um debate sobre a maneira como o Círculo Psicanalítico de Minas Gerais (CPMG) prepara seus alunos através dos cursos do “Tempo do Saber”. Deu-se início a uma acalorada discussão sobre a metodologia empregada pela instituição, sendo uma das colocações do grupo de alunos o fato de não haver um maior esclarecimento prévio da relação entre as matérias e talvez uma sugestão sobre a seqüência das matérias a cursar. Foi colocado, por parte das professoras, uma necessidade dos alunos buscarem mais informações e também discorrido um pouco sobre a filosofia do CPMG de dar uma maior liberdade aos alunos, ganhando com isso novos pontos de vista e não somente uma transmissão de conteúdo.
            Não quero aqui polemizar e desculpem-me por não pormenorizar e simplificar a discussão, a posição dos alunos, dos professores. Meu desejo é apenas relatar a conseqüência que o fato teve em minha análise pessoal. Minha posição, no momento inicial da discussão, era a de que uma estruturação um pouco mais detalhada do processo acadêmico seria bem vinda. Afinal de contas, como aluno, estava ávido por um maior conhecimento, compreensão das matérias e até mesmo preocupado devido ao alto grau de importância que a profissão de psicanalista possui. Encarar que o desejo é a busca para aplacar a falta foi vivenciado neste fato.
            Durante esse semestre discutimos inúmeras vezes sobre o vazio, a verdade, o objeto a, a falta, a angústia, o gozo. Através das aulas e também de minha análise pessoal fui quebrando meus sentimentos em partes, conseguindo assim uma maior compreensão e também elaboração sobre os mesmos. Ao incluir-me no coro dos que gostaria de uma maior participação ou até mesmo direção do CPMG, no auxílio de minha formação psicanalítica, estava na verdade querendo uma certeza de que estava no caminho certo, esperava que o grande outro, detentor do suposto saber, indicasse o caminho, ou no mínimo dividisse o ônus ou bônus dos resultados. Quando me escutei vi que o que estava querendo, a certeza, era justamente o que a psicanálise comprovava não existir e que eu já estava cansado de “saber”, mas acho que, neste caso, até então não tinha entendido.
            Difícil também é aceitar que entramos em uma guerra perdida, a busca pelo objeto a. Elaborar sobre o significado que participar desta batalha perdida tem para mim, também foi muito importante. Sempre soube que atingir metas, objetivos tem uma sensação de prazer momentânea e logo em seguida descobre-se que não é isso, hoje sei que nunca saberei o que é isso. Uma de minhas defesas, ou resistências, sempre foi a racionalização dos fatos, buscando maneiras de aplacar o que hoje posso chamar de falta. Durante minha vida, até conhecer a psicanálise, sempre procurei saber, conhecer, estar preparado e em várias ocasiões sofri com os resultados medíocres que foram alcançados ou com a sensação de que os resultados foram bons, porém estava faltando alguma coisa, ainda queria encontrar o pequeno resto de objeto a que ficava entre os significantes.
            Encontrar o equilíbrio entre acreditar que existe uma verdade e sempre procurá-la, vivendo cercado de frustrações e desistir de procurar a verdade, pois descobri que ela não existe, é difícil. A solução que procuro utilizar é a de buscar gostar do caminho, da busca, dos pequenos contornos de objetos a que encontramos pela vida. Escutei também, em uma de nossas aulas, que fazer análise somente para desiludir-se de tudo não era válido, ficar procurando razões, explicações por que você gosta de determinada pessoa, por exemplo, tem limites, às vezes basta sentir-se bem com o sentimento e não há necessidade de procurar explicá-lo. Tenho que curtir o prazer, a pequenas satisfações que sou capaz de alcançar em minha vida.
            Também ponderei muito sobre as frustrações que o analista encontra em seu caminho. Gostaria de poder explicar aos outros que nunca encontrarão o objeto a, que através da análise e de re-elaborações pode-se construir uma nova verdade para cada sujeito, entre outras coisas. O analista tem o duro caminho de apenas propiciar que o analisante entenda-se, não tem sucesso algum ao tentar explicar, ensinar, muito pelo contrário, só conseguiria gerar resistências ao fazê-lo.
            Durante a última aula também escutei que psicanalista não pára de escrever nunca. Lembrei-me de minha relação com as redações escolares, de como professores conseguiram transformar minha alegria em escrever histórias, com a agonia da procura de uma ortografia correta. Posso dizer, hoje, que me arrependo de minha escolha fácil: escrever corretamente, focado apenas na ortografia, o que me rendia notas “adequadas”. Minha identificação naquele momento foi baseada na educação recebida, com ênfase no rendimento escolar, tão valorizado no ambiente familiar. Atualmente tento enxergar as coisas com menos radicalidade, porém aprendi isso somente através da psicanálise, de que não há certeza, não há verdade absoluta. Existe uma área cinza entre o branco e o preto e não necessariamente ela é errada ou cômoda.