MARCELO SOARES COTTA - CRT 43238
Terapeuta Holístico
Fobia - Medo
 
         Freud nos proporcionou, no caso clínico do menino Hans, um exemplo magnífico de como podem surgir as fobias. Vou inicialmente falar um pouco sobre sintoma, para ilustrar um outro lado de algo que normalmente consideramos somente ruim. Todo processo que me faz pensar, refletir, suar e ter aquele frio na barriga é de visto de maneira positiva por mim. Fazendo um retrospecto da minha vida penso ser impossível ficar longe de momentos desconfortáveis e passei a observar que esses momentos são os mesmos que abrem novos caminhos, levam a um conhecimento novo ou busca de um conhecimento interno maior. Pode ser pelo fato de ter dificuldades em aceitar o sofrimento como tal e sempre ter buscado motivos lógicos para os acontecimentos pessoais. Muitas vezes, inclusive, admito ter colocado a razão em entidades divinas. Hoje, no entanto, esses momentos levam-me a um encontro interior maior, uma busca interna gostosa e muitas vezes sem fim. Encarar a angústia de frente é uma necessidade, uma vez que se decidiu fazer uma análise. O mais aconselhável então é encará-la como fonte de saber, a origem da cura. A análise ensinou a me abrir, enfrentar o mundo. O mais difícil, no entanto é manter a serenidade perante suas maquiavélicas opiniões e julgamentos.
Para falar de fobia precisamos considerar a angústia que é tão constante no ser humano. A angústia que sentimos sofre deslocamentos, sendo o corpo um deles. Sempre que faço apresentações meu corpo sente, tendo como sinal um aumento de minha sudorese. Ao analisar isto penso, que angústia é essa que é origem do meu suor? Pessoalmente o mais excitante da psicanálise é ver como a teoria encaixa com a prática e o melhor exemplo disso é ver em mim o resultado.
Sabemos que falar do sintoma é não falar da angústia, é falar da conseqüência e ignorar a causa. Na análise deve-se buscar e identificar os ladrões que geram sintomas, mal-estar e limitam a vida das pessoas.
         Esses ladrões são profissionais, algumas vezes vestem-se de recalque e transformam os objetos de prazer em objetos de medo. Que medo, que desejo. No caso do pequenos Hans a fobia, o medo, era de cavalos. Este objeto fóbico não foi aleatoriamente escolhido, uma vez que seu pai foi o primeiro a “fingir-se” de cavalo para brincar com o filho.
         No caso de Hans, que gostaria de ver seu pai fora do caminho para ter sua mãe, um desejo que todo ser humano passa por ele, foi reforçado durante as férias de verão, quando a presença e a ausência do pai eram ligadas ao grau de intimidade que podia ter com sua mãe. Isto não implica que o menino não gostasse do pai, sempre que batia no mesmo ia depois beijá-lo, sendo este apenas um exemplo dos inúmeros paradoxos que encontramos no processo analítico.
         Gostaria também de colocar algo sobre os ganhos secundários de Hans com o sintoma, fazendo com que se aproximasse ainda mais do lugar onde mais gostava, próximo à sua mãe. A sabedoria e sedução do menino foram quase suficientes para fazer com que sua mãe o protegesse do outro que impõe o limite necessário para que entendamos que não conseguiremos tudo que desejamos. Dormir na cama com sua mãe, ir ao banheiro junto com ela e outras ações foram aproximando cada vez mais Hans de seus objetivos. E esta mesma mãe, que o menino tanto desejava, foi aquela que negou a existência de outro órgão genital, que repeliu sua masturbação. Imagino o que se passava na cabeça do garoto, que sentimentos profundos e fortes para uma criança: encontrar explicações para “coisas” sem pipi’s, aceitar a lei imposta pela mãe, perder seu prazer com auto-erotismo, etc.
         Neste texto Freud diz que a alta estima do homossexual pelo órgão masculino é que decide o seu objeto de desejo. Na infância ele escolhe mulheres como seu objeto sexual, enquanto presume que elas também possuem o pênis. Quando descobre que elas não possuem sente-se decepcionado e elas deixam de ser objeto sexual para ele. Os homossexuais são pessoas que dão muita importância aos seus próprios genitais e não podem passar sem uma forma semelhante no seu objeto sexual. No curso do desenvolvimento do auto-erotismo para o amor objetal, eles permanecem fixados num ponto entre os dois, mais perto do auto-erotismo. O fato de, pelo menos inicialmente, ter sido negada a informação, a Hans, sobre a existência de outra forma genital podia ter feito com que ele ficasse fixado no único objeto sexual que conhecia, o masculino.
Vejo agora em minhas anotações a preocupação de Freud em validar sua teoria dos três ensaios sobre a teoria da sexualidade e relembro do desejo do analista. Até que ponto Freud desejava que a prática clínica confirmasse suas teorias, onde estava o desejo dele? No entanto o texto diz que uma psicanálise não é uma investigação cientifica imparcial, mas uma medida terapêutica. Sua essência não é provar nada, mas simplesmente alterar alguma coisa. Em psicanálise o médico sempre dá a seu paciente as idéias conscientes antecipadas, com a ajuda das quais ele se coloca em posição de reconhecer e de compreender o material inconsciente. Uma coisa que se coloca contra o ego como um elemento estranho a ele pode levar a uma neurose. O ego é sempre o padrão pelo qual a pessoa mede o mundo externo; a pessoa aprende a compreendê-lo por meio de uma comparação constante consigo mesma.