MARCELO SOARES COTTA - CRT 43238
Terapeuta Holístico
 
 
ENTREVISTAS PRELIMINARES
 
“Infelizmente, não posso asseverar que uma tentativa deste tipo sempre nos capacite a chegar à decisão certa; trata-se apenas de uma sábia precaução a mais.”
(Sigmund Freud)
 
As entrevistas preliminares são a forma que se estabelece um primeiro contato com o paciente. Os psicanalistas têm uma relação única com cada paciente e essa experiência pode ser iniciada de várias maneiras, uma delas é através da utilização das entrevistas preliminares. Para a utilização ou não de um procedimento no processo de análise podem-se considerar vários aspectos como resultados esperados, vantagens, desvantagens, objetivos a serem alcançados, cuidados a tomar, entre outros. Para refletir melhor sobre o tema seria interessante procurar analisar sobre duas diferentes expectativas, a do analista e a do analisando, buscando compreender a necessidade de cada uma das partes envolvidas neste processo. Na decorrer do texto passa-se obrigatoriamente por alguns aspectos essenciais do processo analítico como resistências, transferência e também por questões como diagnóstico estrutural, sintomas. O uso do divã, como lidar com os fatores tempo e dinheiro também são citados. Após o levantamento das questões citadas tem-se uma base mais sólida para refletir sobre a forma como as entrevistas preliminares podem ser úteis tanto ao psicanalista como para o analisando.
 
1       INTRODUÇÃO
         Na prática clínica atual o objetivo das entrevistas preliminares não são unanimidade entre os psicanalistas. Buscando primeiro definir e depois caracterizar os objetivos deste procedimento, pode-se clarear sua utilidade ou não, na clínica psicanalítica. Existem correntes distintas quanto à necessidade de dedicar uma parte específica, de preferência inicial do tratamento, a tarefa de investigação sobre o histórico do paciente.
            Não pretende, esse trabalho, ser um estrito seguidor das normas iniciais escritas por Sigmund Freud, porém sua obra, Sobre O Início do Tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I) datado de 1913, é de grande valia nesse tema. As técnicas utilizadas na criação da psicanálise, com relação às entrevistas preliminares, serão discutidas e analisadas. Buscamos também a opinião de vários outros autores, como Antonio Quinet, Juan Carlos Kusnetzoff, Paulo Dalgalarrondo, David Zimerman, sobre o tema e fizemos uma análise de suas reflexões. Salientamos, acima de tudo, que esta monografia é fruto da interpretação particular do autor sobre as obras dos autores pesquisados.
            A busca por uma organização do processo analítico não é visto nem como o caminho certo a ser seguido, nem como algo que deva ser totalmente retaliado, apenas um rumo que pode abrir as portas para uma melhor compreensão da análise. 
            Este trabalho tem como objetivo levantar alguns benefícios e pontos controversos de se utilizar regularmente às entrevistas preliminares como um suporte para um melhor aproveitamento do processo de análise de um paciente.
            A divisão desse trabalho foi programada como primeiro fazendo uma definição de entrevista preliminar, em seguida partimos para a consolidação dos objetivos que devem ser alcançados com a utilização deste procedimento. Ao elaborar as duas etapas citadas serão consideradas as visões, tanto positivas quanto negativas, para o paciente e para o psicanalista.
            O objetivo desse trabalho não é chegar a uma conclusão que seja indicada para todos os casos, visto que a subjetividade do ser humano não permite tal fechamento. As diferentes situações enfrentadas por analistas podem ser muito mais complexas, portanto requerendo a utilização de outros procedimentos que o analista acredite ser de melhor eficiência e eficácia. Não podemos julgar qual é a melhor solução quando, por exemplo, estamos diante de uma grande resistência inicial do sujeito em falar de sua família, seu passado, ou qualquer outro tema que ele não esteja preparado e disposto a falar no momento. O paciente é a fonte principal de preocupação do analista e mesmo tendo este uma técnica extremamente apurada não conseguirá um resultado satisfatório caso veja o analisante como somente um objeto. É fundamental para uma análise que o analista procure quebrar resistências, incentive o sujeito a falar o mais livremente possível.
            O sujeito, através de novas significações, passa a encarar os fatos da vida de maneira diferente. O caminho da análise busca clarear para o analisante que a incerteza, o vazio, fazem parte do ser humano e trabalhar esses sentimentos é buscada pelo tratamento.
 
2. REFERENCIAL TEÓRICO
2.1. Definição
Iniciando a definição gostaria de começar pelos escritos de Freud.
Todo aquele que espera aprender o nobre jogo de xadrez nos livros, cedo descobrirá que somente as aberturas e os finais de jogos admitem uma apresentação sistemática exaustiva e que a infinita variedade de jogadas que se desenvolvem após a abertura desafia qualquer descrição desse tipo. Esta lacuna na instrução só pode ser preenchida por um estudo diligente dos jogos travados pelos mestres. As regras que podem ser estabelecidas para o exercício do tratamento psicanalítico acham-se sujeitas a limitações semelhantes. (FREUD 1913, p. 164).
 
É clara a metáfora usada por Freud indicando a utilização semelhante do início do tratamento. A ênfase da análise está no processo, no durante, não no início do tratamento. Começamos tendo algo parecido como dando boas vindas ao paciente, uma introdução, uma aproximação entre psicanalista e paciente.
Primeiro começamos a conhecer a pessoa, saber como ela pensa, seus objetivos, seu planejamento e ao mesmo tempo também somos avaliados através de nossos comentários, receptividade, etc.
Abaixo seguem alguns pontos indicados por Freud a serem relevados no início do tratamento.
Mas posso acrescentar que desde então tornei hábito meu, quando conheço pouco sobre um paciente, só aceitá-lo a princípio provisoriamente, por um período de uma ou duas semanas. Se se interrompe o tratamento dentro deste período, poupa-se ao paciente a impressão aflitiva de uma tentativa de cura que falhou. Esteve-se apenas empreendendo uma ‘sondagem’, a fim de conhecer o caso e decidir se ele é apropriado para a psicanálise. (FREUD 1913, p. 165).
 
Uma das primeiras preocupações, portanto, é para com o paciente. A maioria das pessoas que procura na análise uma solução para suas queixas gostaria de receber uma resposta simples e objetiva para a mesma. A busca por uma verdade é iniciada, porém essa verdade, que é fantasmática, é a verdade do sujeito. Desde o início não é feita uma garantia ou segurança com relação à eliminação do que levou a pessoa a procurar ajuda. Deve-se levar em conta que o que somos hoje é fruto das ações que ocorreram no passado e de como elaboramos estes acontecimentos, somos em parte resultado e não causa. Alguns desses acontecimentos serão resignificados tendo um novo sentido no futuro.
Não se responde nem a demanda inicial de saber se é curável, tratável, etc. A psicanálise é, portanto, colocada também como lugar de falta, no sentido de não tratar de todos os casos possíveis, assim essa técnica poderá não ser indicada para determinadas situações.
Durante essa sondagem devemos escutar o que está por trás de eventuais preconceitos, algo quase que folclórico se tomado fora de questão, sobre o processo de análise. Comumente ouve-se falar sobre analistas que não fazem nada durante a seção e somente ficam ouvindo, para a psicanálise tudo é sexual, tudo é culpa da mãe, entre outras coisas. As pessoas chegam muitas vezes perguntando se você é daqueles psicanalistas que não dizem nada, que me farão deitar no divã e ficará perguntando sobre minha família, etc. Talvez a solução para estes preconceitos seja dar tempo, colocar o sujeito para falar mais, para que ele veja o caminho que está seguindo, quebre suas resistências e desta forma encontre e aceite o vazio, que a questão está em si mesmo.
Este experimento preliminar, contudo, é, ele próprio, o início de uma psicanálise e deve conformar-se às regras desta. Pode-se talvez fazer a distinção de que, nele, se deixa o paciente falar quase todo o tempo e não se explica nada mais do que o absolutamente necessário para fazê-lo prosseguir no que está dizendo. (FREUD 1913, p. 165).
 
Começa-se, no entanto, quase que uma associação livre de idéias, deixando correr a história no ritmo que venha a ser mais natural para quem a está revelando. Nada continua sendo dado em termos de resposta, somente induzimos a contar mais. Desde o primeiro contato, o psicanalista deve estar primordialmente focado na fala do paciente, começar a perceber o que ele realmente está querendo dizer, verificar ganhos com os sintomas. Talvez também seja o momento de levantar algumas questões para que ele se interrogue, sem, contudo pressionar demais e afastá-lo aumentando a sua resistência, fazendo com que não retorne mais ao tratamento.
Nas entrevistas preliminares, começamos a verificar sinais, para possíveis diagnósticos, que serão considerados no sentido de se continuar com o tratamento ou não. A incerteza é mais uma vez deixada clara, pois se trata de uma possibilidade diagnóstica, um caminho na direção do tratamento. Como a preocupação principal é com o paciente, Freud defendia que esta é uma maneira a mais de eliminar possíveis enganos por parte do analista quanto ao diagnóstico diferencial entre neurose e psicose.
Ao cético, dizemos que análise não exige fé, que ele pode ser tão crítico e desconfiado quanto queira e que não encaramos sua atitude de modo algum como sendo efeito de seu julgamento, pois ele não se acha em posição de formar um juízo fidedigno sobre esses assuntos. (FREUD 1913, p. 167).
 
Cada ser humano, cada sujeito, apresenta maneiras diferentes de resistência. Céticos, religiosos, desconfiados, hipocondríacos, não importa qual a forma apresentada, devemos procurar uma abordagem para aquele sujeito buscando quebrar essas resistências e propiciar a transferência.
Essa crença inicial que o analisante tem no psicanalista é o ponto de partida para a transferência. Deve-se tomar um cuidado especial neste momento, pois se o analista fica na posição de saber, detentor da solução do problema, algo que todos nós sabemos não ser correto, pois se identificar com essa posição obtura a análise, faz dela uma crença não um lugar de falta.
Deixamos claro, porém, que o objetivo da análise é propiciar ao paciente condição para que ele traga material do inconsciente para o consciente em um trabalho de elaboração. De nada adianta o conhecimento do psicanalista sobre o analisante se este material não for absorvido pelo paciente. As barreiras impostas pelo próprio analisante a ele mesmo, devem ser motivo de um autoquestionamento. As razões de porque nós nos sabotamos, fazendo com que não alcancemos os nossos objetivos conscientes, são fruto de nosso inconsciente e devem surgir no processo analítico.
Os eventos que ocorrem com o sujeito são marcados através de trilhamentos, a experiência passada é única e impossível de ser comparada entre dois seres humanos. O mesmo fato tem repercussões diferentes em cada sujeito, sendo assim, é necessária uma elaboração pessoal para que haja o esclarecimento do sentido que aquela marca tem sobre cada um.
Pontos de importância no início do tratamento são os acordos quanto a tempo e dinheiro. (FREUD 1913, p. 168).
 
Tempo e pagamento são as principais razões conscientes utilizadas pelos pacientes para terminar a análise. São fatores coincidentes a todos e bastante comuns de serem utilizados como razões para as decisões difíceis que tomamos na vida. A maneira de trabalhar essas resistências deve ser bastante estudada pelo analista. Fazer com que o paciente entenda os reais motivos de querer afastar-se da análise não é fácil de ser alcançado. Vivemos em um mundo cada vez mais competitivo e propagandista, tendo a psicanálise vários “concorrentes” com marketing mais populista e soma-se a isto os momentos de angustia e frustração enfrentados durante o processo analítico. Aqui falamos de resistências, o material que ao mesmo tempo dá substancia a análise como também pode ser causa de fuga do analisando. Existe uma linha tênue que separa a elaboração dos fatos pelo paciente e o insuportável para esta mesma pessoa. A função da análise é fortalecer o sujeito, ajudá-lo a encontrar soluções para superar os obstáculos.
Uma pergunta importuna que o paciente faz ao médico, no início, é: ‘Quanto tempo durará o tratamento? De quanto tempo o senhor precisará para aliviar-me de meu problema?’ Se se propôs um tratamento experimental de algumas semanas, pode-se evitar fornecer resposta direta a esta pergunta, prometendo-se fazer um pronunciamento mais fidedigno ao final do período de prova. (FREUD 1913, p. 169).
 
A angústia ou sofrimento que gerou a procura do psicanalista está latente na pessoa que deseja a todo custo saber quando e como será resolvida sua questão. Responder a essa angústia pode criar mais resistência por parte do analisando, gerar novas angústias e não terá atingido o real motivo dela, visto que o que está aflorando é apenas a ponta do iceberg. A ansiedade e a angústia são fatores comuns a todo ser humano e devem ser encarados como sinais de pedido de ajuda. A postura do analista é fundamental neste momento, não podendo em hipótese alguma responder a essa demanda do paciente, mesmo porque uma resposta seria totalmente impossível de ser fornecida.
Nossa sociedade vive a busca do imediatismo e consumismo, o que implica em novas invenções buscando saciar nossa ansiedade. Esta é uma batalha complicada e delicada que deve ser enfrentada diariamente pelos psicanalistas, sem falsas promessas e sem deixar-se envolver pela pressão da sociedade. O trabalho analítico é sempre mais longo do que o paciente espera.
Freud deixa clara a intenção de demonstrar ao paciente o que ele enfrentará, caso deseje continuar na busca pelo seu verdadeiro conhecimento. Por mais maravilhosa que seja a experiência de quem já passou pelo processo analítico não podemos ignorar os momentos complicados vividos no processo. A escolha de fazer ou não análise é da pessoa e por mais que gostaríamos é impossível prever seus resultados, podemos apenas tentar fazer com que a pessoa conheça mais a fundo o porquê de suas ações e sentimentos.
O poder do analista sobre os sintomas da doença pode, assim, ser comparado à potência sexual masculina. Um homem pode, é verdade, gerar uma criança inteira, mas mesmo o homem mais forte não pode criar no organismo feminino só uma cabeça, ou um braço, ou uma perna; não pode sequer determinar de antemão o sexo da criança. (FREUD 1913, p. 172).
 
Muitas vezes o paciente, para abreviar o tratamento pede para tratar somente um ponto específico, porém o analista não pode.
Nessa citação Freud coloca que o analista não tem o poder sobre um sintoma isolado. Ele pode levar a um processo de análise, mas não pode tratar partes do psiquismo como se fossem pedaços isolados. Os sintomas fazem parte de um processo e suas manifestações não são independentes umas das outras, ou seja, a retirada de um sintoma, sem um trabalho psíquico, pode inclusive, pelo deslocamento, levar ao aumento de um outro sintoma anteriormente insignificante.
Ele pode indicar que as questões de dinheiro são tratadas pelas pessoas civilizadas da mesma maneira que as questões sexuais — com a mesma incoerência, pudor de hipocrisia. O analista, portanto, está determinado desde o princípio a não concordar com esta atitude, mas, em seus negócios com os pacientes, a tratar de assuntos de dinheiro com a mesma franqueza natural com que deseja educá-los nas questões relativas à vida sexual. (FREUD 1913, p. 173).
 
O paciente usará o caminho que conhece, ou seja, procurará razões conscientes e objetivas que servem de obstáculo a continuar na terapia. O dinheiro é uma delas. A forma natural do analista de colocar seu preço já demonstra para o paciente como ele pode lidar da mesma maneira com suas questões, sem o aspecto de pudor e hipocrisia que existe nos tratos com dinheiro bem como na vida sexual. O dinheiro cobrado do paciente tem que ser compatível com as condições dele, nem a mais nem a menos, não deixando que seja usado como resistência.
Atenho-me ao plano de fazer com que o paciente se deite num divã, enquanto me sento atrás dele, fora de sua vista. Esta disposição possui uma base histórica: é o remanescente do método hipnótico, a partir do qual a psicanálise se desenvolveu. Mas ele merece ser mantido por muitas razões. A primeira é um motivo pessoal, mas que outros podem partilhar comigo. Não posso suportar ser encarado fixamente por outras pessoas durante oito horas (ou mais) por dia. Visto que, enquanto estou escutando o paciente, também me entrego à corrente de meus pensamentos inconscientes; não desejo que minhas expressões faciais dêem ao paciente material para interpretação ou influenciem-no no que me conta. (FREUD 1913, p. 176).
 
Nosso inconsciente domina ações de nosso corpo, sendo impossível um controle completo sobre nossas reações. O analista não está livre de suas questões pessoais poderem surgir durante sua escuta e não pode deixar que suas expressões faciais dêem margem para interpretações ou influenciem o paciente.
Já do lado do paciente, existem pessoas que podem sentir-se abandonadas pelo analista, uma vez que não estão em contato visual com o mesmo, estando aí no seu “instinto de olhar” (escopofilia) ou até remeter a ações do passado em que a falta de contato direto com outra pessoa gera algum tipo de reação, sendo mais um campo de trabalho para o analista. Esse sentimento do analisante em relação ao analista deve-se a transferência dentro do processo analítico.
O divã propicia isolar esta transferência e permitir que os pensamentos do paciente fiquem voltados para ele mesmo e apareçam no devido tempo como resistências. Cria-se muitas vezes um sentimento de angústia, de falta, que gera um excelente material para ser analisado. As formas como essas resistências aparecem no processo analítico são as mesmas que o individuo se defende e resiste no cotidiano de sua vida.
O que me vai dizer deve diferir, sob determinado aspecto, de uma conversa comum. Em geral, você procura, corretamente, manter um fio de ligação ao longo de suas observações e exclui quaisquer idéias intrusivas que lhe possam ocorrer, bem como quaisquer temas laterais, de maneira a não divagar longe demais do assunto. Neste caso, porém, deve proceder de modo diferente. Observará que, à medida que conta coisas, ocorrer-lhe-ão diversos pensamentos que gostaria de pôr de lado, por causa de certas críticas e objeções. Ficará tentado a dizer a si mesmo que isto ou aquilo é irrelevante aqui, ou inteiramente sem importância, ou absurdo, de maneira que não há necessidade de dizê-lo. Você nunca deve ceder a estas críticas, mas dizê-lo apesar delas — na verdade, deve dizê-lo exatamente porque sente aversão a fazê-lo. (FREUD 1913, p. 177).
 
Livre associação de idéias e afrouxamento da censura é o que Freud nos diz nessa passagem. Durante a fala o paciente deve estar muito bem comunicado no sentido de não deixar que suas repressões, vergonhas ou qualquer outro sentimento esteja influenciando no que ele fala. Constantemente elaboramos em demasia a fala, quando o objetivo, durante a análise, é falar instantaneamente o que vier a cabeça.
Ficar atento a mudanças radicais de assunto, provavelmente indicando que o ponto da fala prévia a mudança estava chegando em algo indicativo de um recalque.
A grande descoberta, em termos de tratamento, feita por Freud, foi que através da livre associação a fala do analisando faz emergir pontos que durante sua trajetória de vida ele não se deu conta delas, não queria ou não podia se lembrar, como efeito do recalque.
Existem inúmeras formas de resistência. O paciente busca inconscientemente maneiras de fugir do vazio que ele sente, sua incompletude. O ser humano usa disfarces para transparecer ser melhor do que realmente é. Vemos pessoas que querem ajudar os outros, comprar uma casa para a família, participar de trabalhos de caridade, etc, que muitas das vezes estão fugindo, ou tentando fugir, de um sentimento interno que ainda não foi desvendado, um mal estar indeterminado. Tentamos correr de nós mesmos o mais que podemos, quando deveríamos buscar conhecer a nós mesmos o máximo que pudermos. Fazer com que o paciente solte-se e fale realmente, através da associação livre de idéias, não é uma tarefa simples, envolve um longo trabalho de quebra de resistência para que a pessoa não tenha vergonha, medo, de transparecer seus mais íntimos sentimentos. Para isso o psicanalista precisa jamais emitir juízos de valor ou deixar-se influenciar pelas suas crenças pessoais.
Penso estar sendo prudente, contudo, em chamar estas regras de ‘recomendações’ e não reivindicar qualquer aceitação incondicional para elas. A extraordinária diversidade das constelações psíquicas envolvidas, a plasticidade de todos os processos mentais e a riqueza dos fatores determinantes opõem-se a qualquer mecanização da técnica; e ocasionam que um curso de ação que, via de regra, é justificado possa, às vezes, mostrar-se ineficaz, enquanto outro que habitualmente é errôneo possa, de vez em quando, conduzir ao fim desejado. Estas circunstâncias, contudo, não nos impedem de estabelecer para o médico um procedimento que, em média, é eficaz. (FREUD 1913, p. 164).
 
Mais uma vez Freud lembra-nos da maleabilidade que o processo de análise requer, inclusive indicando suas próprias regras como recomendações. Fica claro que caminhos diferentes podem ser tomados e respostas diferentes serão recebidas pelos analistas. Cada caso é um caso, cada pessoa é um ser único e inigualável, portanto cada terapia é uma nova terapia.
 
2.2. Objetivos
Durante a primeira parte desse trabalho, falamos sobre algumas opiniões de Freud e outros autores sobre o que são as entrevistas preliminares e também considerações sobre o que poderemos encontrar no decurso delas e da análise. Precisamos agora descrever seus objetivos, a mudança que ela proporciona ao paciente e os pontos a serem observados pelo analista.
Assim como no processo de análise propriamente dito, nas entrevistas preliminares não podemos estipular um prazo para que o paciente cumpra esta etapa. Verificamos, através da fala deste paciente, sua transformação, alterando sua forma de expor os problemas, deixando de colocar a culpa dos acontecimentos, que ocorrem com ele, nos outros e assumindo sua parcela de responsabilidade. Sua fala passa a demonstrar que questões pessoais estão envolvidas no processo. A maneira como o paciente age, suas atitudes, passam a ser alvo de questionamento próprio.
Nas entrevistas preliminares não estamos interessados no sintoma em si, nem nas expressões somáticas somente, não está o paciente para ser um mero gravador repetindo sua história de vida e respondendo as perguntas do terapeuta. O sujeito da psicanálise é o sujeito do inconsciente. As entrevistas começam dando inicio a uma relação subjetiva entre paciente e psicanalista, procurando criar uma relação paciente e paciente. O importante para o psicanalista é a escuta da fala do paciente.
O rigor não se encontra nas condições erigidas em regras, mas na condução da análise sobre a qual o analista deve saber responder. Daí a exigência estabelecida por Lacan de um trabalho prévio à decisão de aceitar um paciente em análise: as entrevistas preliminares, que tem suas funções diagnostica, sintomal e transferencial. Elas correspondem ao que Freud denominou de ensaio. (QUINET 1991, p. 11).
 
Os meus objetivos estão sustentados nas três etapas desenvolvidas por Antonio Quinet no texto “As 4 + 1 condições da análise”: a função sintomal (sinto-mal), a função diagnóstica, a função transferencial.
 
       2.2.1 Função Sintomal   
            Os pacientes, normalmente, procuram ajuda dos terapeutas em função de uma ou mais queixas. É fundamental que tenhamos consciência da importância que o sintoma tem para ele, apesar de sabermos que ele é somente o resultado de algo muito mais profundo que aflige o cliente.
            Os sintomas são sem dúvida fonte de informações que provavelmente iniciarão a fala do paciente, mas desse momento em diante temos que fazer pontuações e deixar correr a livre associação de idéias. O tempo da entrevista preliminar é o tempo que o paciente precisa para perceber que existe algo mais que o faz sentir-se mal, além daquela queixa. Nossa tarefa é ajudar o paciente a perceber este algo mais que está por detrás do sintoma.
            O paciente deve, com o processo analítico, entender que possui um papel ativo e individual nas mudanças que deseja em sua vida. Durante as seções são levantadas questões que mexem com a pessoa, que o fazem interrogar sobre si mesmo, a relacionar o seu sintoma como uma resposta para suas questões (sintoma analítico).
 
                   2.2.2 Função Diagnóstica
            Como função diagnóstica gostaria de dizer, primeiramente, que o objetivo das entrevistas é ter uma idéia da estrutura que o paciente funciona. Avaliar o paciente emocionalmente, saber se está sob efeito de algum medicamento, um histórico familiar, se já teve alguma outra experiência terapêutica, todos estes fatores também podem ser úteis para ajudar o psicanalista em uma diferenciação diagnóstica.
            Dentro da teoria psicanalítica, temos 3 estruturas, tendo cada uma delas características particulares encontrando diferentes respostas diante do Édipo, da castração:
·      Neurose – nega a castração, sob o efeito do recalque não se recorda, mas a estrutura torna-se presente no sintoma que fornece uma organização simbólica que representa o sujeito.
·      Perversão – ocorre uma recusa na admissão da castração, sendo o fetiche a maneira particular de retorno, no simbólico, do que foi recusado.
·      Psicose – o retorno acontece no real, não no simbólico, como é o caso da neurose e da perversão, sendo a alucinação e o delírio os fenômenos mais comuns.
 
            Essa diferenciação estrutural é importante, mesmo sendo hipóteses, para que o analista possa estabelecer a estratégia da direção da análise, sem a qual ela ficaria desgovernada.
 
                   2.2.3 Função Transferencial
            Esta função é a base da análise, fundamental para o processo. A origem da transferência é basicamente inconsciente. A base da transferência é o sujeito suposto saber, ou seja, a crença do paciente de que o analista sabe de suas verdades e tem conhecimento para resolver suas questões pessoais.
            O grande perigo da transferência é a identificação do psicanalista com esse sujeito detentor do saber. A posição dele não é a de querer saber, entender o paciente. Saber sobre o paciente e informá-lo de si não significa solução para os sintomas que ele apresenta. Nenhuma mudança é possível até que o processo consciente do pensamento tenha se associado a conteúdos inconscientes e superado as resistências do recalque.
            Se há uma busca por uma pessoa, há um saber na mesma ou naquilo que a pessoa quer se desvencilhar. É exatamente por isso que a transferência é essencial, proporcionando que o sentimento reapareça na pessoa do analista. Repetição de algo que lhe aconteceu anteriormente. Sua crença é um derivado do amor. Desta forma o analisando tem a possibilidade de fazer uma nova elaboração sobre o acontecimento. A transferência amorosa ou hostil, que poderia constituir uma ameaça ao tratamento, torna-se seu melhor instrumento. O desejo narcisista do analista é constantemente tentado nestes momentos. A transferência é função do analisante não do analista, o analista deve saber como usá-la, propiciando ao paciente ferramentas para aproveitá-la.
 
 
3. CONCLUSÃO
            Como quase tudo bem feito na vida é fundamental acreditar no que se faz. O analista que enfocar as entrevistas preliminares deve confiar na sua utilidade, desta forma poderá aproveitar ao máximo os ganhos com o procedimento e não somente preencher um formulário que ficará arquivado em seu consultório.
            Toda relação tem uma maneira de começar, dificilmente somos totalmente claros ou honestos com pessoas que não conhecemos ou conosco mesmo. As entrevistas são como uma apresentação, um início de tratamento, buscando cada vez mais uma transferência, utilizada para a superação das resistências, quando poderá ser desfeita, o que é o seu destino.
Observamos duas vertentes bem distintas sobre as entrevistas preliminares. Sigmund Freud com sua denominação de experimento preliminar, tratamento experimental observa o cuidado com a técnica, bem pontual no sentido didático, separando parte por parte. Já Antonio Quinet, com um pensamento mais inspirado em Jacques Lacan, é mais voltado para a mudança de posição do sujeito, seu discurso, sua relação com o outro. No entanto, ambos estão voltados para fazer emergir um novo sujeito.
Entrevistas preliminares não são para normatizar ou enquadrar o sujeito numa técnica, mas seria todo o tempo que o sujeito precisa para trazer questões sobre si mesmo. Quando isso surgir inicia-se a análise propriamente dita.
 
5       REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
 
FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento (novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). In ESB, v. XII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
QUINET, Antonio. As 4 + 1 condições da análise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1991.
KUSNETZOFF, Juan Carlos. Introdução à psicopatologia psicanalítica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.
DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.
ZIMERMAN, David E. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2004.
LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.