MARCELO SOARES COTTA - CRT 43238
Terapeuta Holístico
Considerações sobre as pessoas
 
            Uma das primeiras dúvidas que tive sobre as diferenças entre os seres humanos era porque uma pessoa falava uma “coisa” e a outra entendia algo totalmente diferente.
            Infelizmente hoje sei que nem a pessoa que diz algo sobre seu próprio desejo sabe do que está falando. Seria demais pedir que seu interlocutor conseguisse decifrar a mensagem. Esta matéria do curso de psicanálise permitiu que conseguisse visualizar melhor os pontos cegos da comunicação: significantes, significados, fantasmas, desejos...
            A comunicação entre duas pessoas sempre foi um mistério para mim, porém o mistério está antes da comunicação, está na própria pessoa. Vou deixar para falar da falta de conhecimento de nosso próprio desejo no final, quero começar pelo que possivelmente seria mais fácil.
            Como fazer, dentro de um processo de comunicação entre duas pessoas, que haja um consenso entre elas sobre seus significantes e significados? Como equacionar as histórias de vida, diferenças de cultura, interpretações sobre fatos, isso sem falar dos trilhamentos, recalques. Vamos citar um pequeno exemplo e tentar elaborar um pouco mais sobre ele:
            Existe uma lenda sobre uma empresa que enviou 2 vendedores para a China. Esta empresa era fabricante de calçados e gostaria de saber se havia mercado para seus produtos naquela região. Cada vendedor não sabia que havia um colega seu no local, portanto, não se comunicaram nem discutiram seu relatório final. Um dos vendedores enviou um relatório dizendo que a empresa devia abandonar o projeto de vender calçados na China, pois naquele país ninguém usava calçados. O outro vendedor enviou um relatório solicitando que a empresa quadruplicasse a quantidade de calçados produzidas, pois na China ninguém ainda usava calçados.
            Mais do que um caso engraçado, esta lenda é um bom exemplo de como o mesmo fato pode ser interpretado de maneiras tão opostas. Quais seriam os fantasmas dos dois vendedores? Que diferentes experiências de vida poderiam levar a conclusões tão opostas? Poderíamos passar horas conversando e encontrando alternativas, falando sobre o supereu de cada um dos vendedores, que complexo de Édipo que cada um herdou, que experiências podiam fazer com que um fosse tão rígido quanto a mudanças e outro tão propicio. Seria maravilhoso traçar estas hipóteses de vida, mas existe a possibilidade de aproximar as duas pessoas? Ao escrever esta pergunta me questiono: existe necessidade de aproximá-las? Ganharíamos mais as deixando pensando paradoxalmente ou na mesma direção?
            Analisando através de um ponto de vista de longo prazo e também pelo lado subjetivo, esta divergência de idéias é vista como uma grande oportunidade para debates, crescimento, descobertas. Esta lenda é uma grande fonte de alimentação para filósofos, sociólogos, psicólogos e também uma dor de cabeça para matemáticos, economistas, administradores. Uns querem entender, compreender o ser humano, outros querem saber a direção que ele tomará para que possam prosseguir com seus cálculos.
            Do ponto de vista do empreendedor, dono da companhia de calçados, com sua eterna busca por melhores lucros, participação de mercado, expansão empresarial, concorrência, o objetivo é ter a resposta certa, ela existe? O empresário quer saber o caminho do lucro, nada mais. Podemos afirmar que todo esforço empresarial no sentido de compreender melhor o lado humano, “melhorar a condição de trabalho de seus funcionários”, é em busca de mais produtividade, melhores resultados. Olhando pelo enfoque do proprietário da empresa a única maneira de buscar um ambiente propicio a convivência de diferentes idéias seria a de elas levarem a resposta correta.
            Outra forma de analisarmos esta lenda seria extrair uma mensagem dizendo que os opostos são mais próximos do que imaginamos como amor e ódio, parecido e diferente, e todos os paradoxos que encontramos no percurso de uma análise. Quando analisamos que o que nos incomoda tem tudo a ver conosco.
            Como uma simples história pode levar-nos a tantas elaborações? Ao pensar um pouco mais sobre a diferença de supereu dos dois vendedores, lembro-me de uma aula, ainda no tempo do saber, em que foi discutido sobre a alternativa mais saudável para a relação entre supereu e ego. Fazíamos uma metáfora dizendo que a fonte de alimentação dos dois vem de um mesmo lugar, então uma das colegas do curso disse uma frase interessante:
_ “Prefiro ver meu ego obeso e meu supereu desnutrido.”
 Deixar o desejo por último não foi uma escolha acertada. Se nem o que considerava possível no início do trabalho teve uma solução, imagina o que sei que não há solução. Estava inclinado a dizer que não é justo não sabermos qual é o nosso real desejo, mas exatamente por não sabermos qual é, continuaremos nessa grande busca. Precisamos, no entanto, saborear mais o caminho que trilhamos na busca de realizar nossos supostos desejos.
Cada possibilidade de interpretação desta lenda é uma grande fonte de suposições e estudos para nossa matéria, meu objetivo foi somente apontar alguns deles para nossa reflexão.
Não posso deixar de citar os ganhos que tive pessoalmente com o aprendizado deste semestre. Um dos exemplos é que sempre gostei de jogar tênis, porém tinha o péssimo hábito de descontar na raquete eventuais frustrações. Durante o percurso de minha análise pessoal consegui reverter esse sintoma. Pude, com o passar do tempo, nos momentos em que iria bater na raquete, lembrar dos motivos que estavam me levando a fazê-lo e ria de mim mesmo. A partir daí, no entanto, o jogo de tênis começou a perder o prazer que me proporcionava.
Com as aulas e discussões em sala pude compreender que tinha atravessado um fantasma que culminou com o término do sintoma. Depois de cumprida esta etapa era o momento de dar uma nova significação ao jogo de tênis. Quando consegui fazê-lo, este voltou a ser um grande prazer para mim, sem que o sintoma retornasse.
A soma das minhas experiências práticas e a transformação dos meus olhos e ouvidos, que ocorrem com a teoria psicanalítica, fazem com que veja minhas escolhas na vida de uma nova maneira.